
Em 10 de janeiro de 1946, o Decreto-Lei 8.621 atribuiu à Confederação Nacional do Comércio a tarefa de criar e organizar o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, o Senac. No mesmo dia, outro decreto-lei, o 8.622, tratou da aprendizagem dos comerciários. Oitenta anos depois, a data é um bom ponto de partida para revisitar a história da formação profissional voltada ao comércio e aos serviços no Brasil, e para entender como as ocupações do setor mudaram desde então.
O Brasil de meados dos anos 1940 vivia uma urbanização acelerada. As cidades cresciam, o comércio se diversificava e as lojas, escritórios e armazéns precisavam de gente que soubesse fazer contas, atender, organizar mercadorias e cuidar de documentos. A formação para essas funções, porém, dependia quase sempre do aprendizado informal, feito no balcão, ao lado de um funcionário mais velho.
A indústria já tinha dado um passo nessa direção. Em 1942 havia sido criado o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o Senai, com a proposta de formar aprendizes e trabalhadores para as fábricas. O modelo combinava duas ideias: a gestão das escolas ficaria com as entidades dos empregadores, e o financiamento viria de uma contribuição das próprias empresas. Em 1946, o mesmo desenho foi levado ao comércio.
O texto de 1946 encarregava a Confederação Nacional do Comércio de organizar e administrar, em todo o território nacional, escolas de aprendizagem comercial. Além da formação de aprendizes, o decreto previa cursos de continuação, cursos práticos e cursos de especialização para empregados adultos do comércio.
Esse ponto merece destaque. Desde o início, a formação comercial não foi pensada só para jovens em início de carreira, mas também para trabalhadores que já estavam empregados e precisavam se atualizar. É uma ideia que atualmente parece óbvia, a da educação ao longo da vida, mas que naquele momento representava uma mudança na forma de encarar a qualificação.
Nos anos seguintes, a estrutura se consolidou. Ainda em 1946 surgiram também serviços sociais voltados ao bem-estar dos trabalhadores do comércio e da indústria, e o conjunto dessas instituições passou a ser conhecido informalmente como Sistema S. Cada uma com seu foco, elas se tornaram parte importante da oferta de educação profissional no país, ao lado das escolas técnicas públicas.
Na história da formação profissional brasileira, esse modelo se destaca por algumas características:
Comparar o trabalho no comércio de 1946 com o de 2026 ajuda a entender por que a formação precisou se reinventar várias vezes. O balconista que anotava pedidos à mão deu lugar a operadores de caixa, depois a atendentes que lidam com sistemas de gestão, leitores de código de barras e, mais recentemente, pedidos que chegam por aplicativos e redes sociais.
Algumas mudanças marcaram o setor ao longo dessas décadas:
Cada uma dessas ondas criou ocupações novas e tornou outras obsoletas. A formação acompanhou o movimento com cursos de informática, logística, gestão, hospitalidade e, mais recentemente, marketing digital e análise de dados.
Oitenta anos de formação para o comércio deixam uma lição que vale para qualquer trabalhador: as funções mudam, e a qualificação precisa mudar junto. O conteúdo técnico de um curso envelhece; a capacidade de aprender de novo, não. A história mostra que os profissionais que atravessaram as transformações do setor foram, em geral, os que continuaram estudando depois do primeiro emprego.
O Decreto-Lei 8.621, de 10 de janeiro de 1946, atribuiu à Confederação Nacional do Comércio a criação e a organização do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial. Em 2026 a instituição completa 80 anos.
Formar aprendizes para o comércio e oferecer cursos de continuação, práticos e de especialização para empregados adultos do setor. A ideia era profissionalizar funções que até então eram aprendidas de modo informal.
É o nome informal dado ao conjunto de entidades de aprendizagem e de serviço social ligadas a setores produtivos, como indústria e comércio. Elas são administradas por entidades empresariais e atuam na formação profissional e no bem-estar dos trabalhadores.
Fame Treinamentos, 2026.